Podcast y audios para whatsapp como estrategias para combatir a la covid-19 en comunidades indígenas

 

Podcast and audios for whatsapp as strategies to combat covid-19 in indigenous communities

O podcast e o “áudiozap” como estratégias etnomidiáticas no combate ao coronavírus em comunidades indígenas

 

e-ISSN: 1605 -4806

VOL 24 N° 110 Enero - Abril 2021 Varia pp. 370-382

Recibido 12-01-2021 Aprobado 19-05-2021

https://doi.org/10.26807/rp.v25i110.1730

 

Luan Chagas

Brasil

Universidade Federal de Mato Grosso

[email protected]

Marcio Camilo da Cruz

Brasil

Universidade Federal de Mato Grosso

[email protected]

Jenisson Edy Viana Bartniski

Brasil

Universidade Federal de Mato Grosso

[email protected]

 

Resumen

Este artículo realiza un análisis del uso del audio como medio etnomidáctico para combatir la propagación del nuevo coronavirus en comunidades indígenas. A partir de un estudio de caso sobre los productos AudioZap de la Tierra, Salud en Chão de Aldeia y Audios Wayuri, se verificó cómo el espacio de mediación de las producciones radiales ampliadas encaja en el contexto de la ascendencia, el espacio indígena y la posibilidad. comunicación comunitaria emancipadora. Los resultados señalan la necesidad de estudios exploratorios en la perspectiva descolonial de las prácticas de la radio expandida e hipermedia en el contexto indígena e indigenista.

Palabras clave: etnomedia; radio expandida; coronavirus; decolonialidad.

Resumo

O presente artigo realiza uma análise sobre a utilização do áudio como forma etnomidiática de combate à disseminação do novo coronavírus em comunidades indígenas. A partir de um estudo de caso sobre os produtos ÁudioZap Povos da Terra, Saúde no Chão de Aldeia e Áudios Wayuri, verificou-se como o espaço de mediação das produções do rádio expandido se inserem no contexto da ancestralidade, do espaço indígena e da possibilidade de uma comunicação comunitária emancipadora. Os resultados apontam para a necessidade de estudos exploratórios na perspectiva decolonial das práticas do rádio expandido e hipermidiático no contexto indígena e indigenista.

Palavras-chave: etnomídia; rádio expandido; coronavírus; decolonialidade.

Abstract

This article conducts an analysis of the use of audio as an ethnomidactic means of combating the spread of the new coronavirus in indigenous communities. Based on a case study on the AudioZap peoples of the Earth, Health in Chão de Aldeia and Audios Wayuri products, it was verified how the mediation space of expanded radio productions fits in the context of ancestry, indigenous space and the possibility emancipatory community communication. The results point to the need for exploratory studies in the decolonial perspective of the practices of expanded and hypermedia radio in the indigenous and indigenist context.

Key words: ethnomedia; expanded radio; coronavirus; decoloniality.

 

Introdução

A pandemia da Covid-19 escancarou uma tragédia que se configura no cotidiano de diferentes povos pelo mundo entre os centros e as periferias. As comunidades originárias já esquecidas diante da ausência de políticas públicas eficientes em suas dinâmicas e vivências específicas foram atingidas diretamente neste período. No Brasil, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) é subsistema do Sistema Único de Saúde responsável pelo mapeamento e monitoramento diário dos casos entre os indígenas. Porém, a Articulação dos Povos Indígenas (Apib) afirma que há uma subnotificação dos casos que não considera indígenas que estão nas áreas urbanas e realiza um levantamento independente em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA).

Até o fechamento deste artigo (21 de janeiro de 2021), os dados da Apib em conjunto com o ISA e o Comitê Nacional de Memória Indígena quantificavam 928 mortes em um conjunto 46355 casos inseridos em 161 povos afetados1. Já os dados oficiais do Governo Federal, contabilizados pela Sesai, falam em 530 óbitos num total de 40458 indígenas infectados2. A conscientização e o combate à disseminação do novo coronavírus passa por frentes de atuação que inserem as produções comunicacionais no centro das estratégias voltadas aos povos afetados. Neste contexto, como o espaço de mediação (Martín-Barbero, 2003) das produções do rádio expandido se inserem no contexto da ancestralidade, do espaço indígena e da possibilidade de uma comunicação comunitária emancipadora (Nascimento, 2020)?

Entre as estratégias adotadas, o áudio se tornou uma das formas de envio de comunicados, podcasts, programas informativos e spots de conscientização. Um dos argumentos foi a acessibilidade trazida pelas ondas hertzianas em emissoras comunitárias próximas às aldeias e pelos grupos de WhatsApp dos povos. Tudo isso reforçado pela possibilidade de enviar informações sem risco de contágio. O objetivo deste artigo é realizar um estudo de caso sobre experiências etnomidiáticas em áudio voltadas à disseminação de informações para e com os indígenas sobre a pandemia em plataformas de mensagem instantânea como o WhatsApp.

O estudo de caso é realizado a partir da escuta e análise dos produtos “ÁudioZap Povos da Terra”, da Universidade Federal de Mato Grosso, do podcast “Saúde no Chão de Aldeia”, da Operação Amazônia Nativa e dos áudios da Rede de Comunicadores do Rio Negro. Com essa análise exploratória, o artigo pretende responder às seguintes questões de pesquisa: I) Como os áudios consideram as dinâmicas da ancestralidade, da oralidade e da etnomídia indígena?; II) O Rádio Expandido e Hipermidiático se reconfigura na produção voltada para o WhatsApp no contexto da pandemia do novo coronavírus?; III) Há uma perspectiva emancipadora e decolonial na produção que consideram os saberes e línguas dos povos indígenas?

Decolonialidade e a comunicação indígena

Este artigo procura realizar um exercício de descolonização ou deconolonização dos conceitos que atravessam o cotidiano de pesquisa na comunicação. Por isso, passamos pela ideia do giro decolonial (Balestrin, 2013) e nos reflexos da colonização no pensamento e na epistemologia da América Latina (Quijano, 1992), até a importância da etnomídia (Nascimento, 2020) e da mediação (Martín-Barbero, 2003) destas estratégias em áudio no período de análise.

Os estudos sobre a colonialidade permitem entender os elementos que perpassam um padrão do poder capitalista naquilo que Quijano (1992) chama de racionalidade colonizadora, envolvendo a classificação racial e étnica da população em amplas formas de poder. As questões subjetivas e “dimensões materiais da existência social cotidiana”, impuseram formas de olhar que para o autor impactam nos “modos de conhecer, de produzir conhecimento, modos de significação e instrumentos de expressão formalizada e objetividade, intelectual ou visual” (Quijano, 1992, p. 12).

Essa concepção também é considerada por Walter Mignolo (2010) no sentido de pensar uma estrutura complexa da colonialidade do poder sobre o controle da economia, autoridade, natureza e recursos naturais, gênero e sexualidade, subjetividade e conhecimento. Conceitos que unem Quijano, Mignolo e Ramón Grosfoguel permitem entender como o sistema capitalista de opressão aos povos latino-americanos são expressos de forma “mundializada”. Grosfoguel (2008) por exemplo, com base no conceito de Sistema-Mundo de Immanuel Wallerstein, destaca a construção de um “sistema-mundo moderno colonial” baseado no capitalismo, racismo e no patriarcado.

No campo da comunicação, este olhar sobre questões que envolvem a cotidianidade das relações colonizadas foi pensada também por Herrera, Sierra e Del Valle (2016, p. 87) em artigo publicado na Revista Chasqui, da Ciespal. Para os autores, pensar na decolonização da área envolve a “reconstrução histórica que gerem processos de produção e valorização dos saberes locais, práticos, ancestrais e populares que foram subestimados pelos saberes universais”.

Os autores citam por exemplo a necessidade de conhecer e reconhecer as práticas indígenas como formas de produção do conhecimento na área da comunicação. Por isso, citamos aqui alguns exemplos inseridos na necessidade de uma revisão ou um repensar nas categorizações históricas de reconhecimento de processos e práticas de comunicação no âmbito da América pré-colombiana (Beltrán, et al, 2009; Aguiar, 2017). A provocação de Aguiar (2017, p. 246) se insere neste espaço de questionamento: não reconhecemos as práticas anteriores à chegada dos europeus pela confiança do conhecimento universalizado baseado na escrita ou “por ser a própria epistemologia do Jornalismo, da História, fundada nas noções de fontes e documentação e no estatuto da verdade, ainda quando admitida a parcialidade das narrativas, uma criação específica de uma civilização em particular – a Ocidental, derivada das matrizes que a antecederam – que depende, por sua própria lógica interna, da construção, manutenção e acesso a esses mecanismos fundadores?”.

Com essa questão, Aguiar (2017, p. 253) apresenta o exemplo da ideia de narrativa, ou até mesmo notícia na concepção do povo Tupinambá sobre a Poranduba:

A palavra tupinambá para “notícia” ou “novidade” era poranduba, cuja etimologia, ao ser destrinchada, revela o radical -endub, indicativo do verbo para “ouvir”. O verbo porandub é “perguntar”, enquanto mo-morandub é “avisar”, ou literalmente “fazer ouvir”. Já a primeira parte de poranduba, poro-, segundo Navarro (2013, p.399), é um prefixo que remete a “pessoas” indeterminadas, a “gente”, na coletividade, ou ao ser humano (o mesmo radical presente no termo Abaporu, de abá+poro+u, “o homem que come humanos” – ou seja, o canibal, o antropófago).

O que chama a atenção é que as formas de narrativa, a oralidade e a busca pela transmissão das informações etnomidiáticas que analisamos neste artigo privilegiam o áudio pela facilidade da escuta, da cultura do ouvir: “Poranduba, portanto, não é aquilo que é dito, mas aquilo que se ouve das pessoas” (Aguiar, 2017, p. 253). Algo que o autor destaca como uma percepção que subverte a ordem clássica dos conceitos comunicativos que colocam “ênfase sobre o enunciar, o dizer, a emissão”.

A narrativa como um todo no perspectivismo indígena dos acontecimentos torna a Poranduba um conceito que inclui, no caso dos Tupis, a narrativa como um todo, desde os relatos, fábulas, contos, histórias até o pensar sobre o que era novo: “O conceito de ‘notícia’ para os tupinambás está inscrito sob a noção mais ampla de narrativa, a partir 1) do entendimento de que a narrativa dizia respeito particularmente à dialética ouvinte/enunciador e 2) do concomitante abandono da preocupação com uma “verdade” externa, particular do objeto” (Aguiar, 2017, p. 255).

A proposta de Aguiar (2017, p. 260) se junta a outros mapeamentos e análises realizados por antropólogos, estudiosos, indigenistas e os próprios povos indígenas quando remetem às formas de comunicação existentes entre gerações nestas comunidades. Para o autor, é preciso “abandonar os pressupostos cartesianos e devolver protagonismo às populações que ouvem, que recebem, que são situadas à margem e nas periferias do sistema-mundo”.

Dentro desse exercício epistemológico da cultura do ouvir e da necessidade de analisar os processos históricos em que são instituídas as produções indígenas no perspectivismo de Viveiros de Castro (2015), dois exemplos são fundamentais para pensar a relação entre o áudio e a etnomídia na atualidade: o Parejará e o Cambarissu. As duas formas de comunicação são relatadas por Vicente Caride e Armando Vivante (1942) na Revista Geográfica Americana, que reverberam na cultura comunicacional destes povos. O relato dos pesquisadores de 1942 é uma forma do reconhecimento de tecnologias pré-colombianas de comunicação.

O primeiro exemplo são os mensageiros Guaranis chamados de Parejará que percorriam regiões longínquas entre a Amazônia e o restante do hoje conhecido Brasil para levar mensagens. Os autores os definem como “indivíduos escolhidos, corredores resistentes e velozes que tinham a missão de levar bolsas com mensagens de uma tribo a outra, para entregar aos conselhos de anciãos ou caciques” (Caride & Vivante, 1942, p. 76). Os longos caminhos percorridos pelos Parejarás haviam pontos de concentração ou depósitos de mensagens, como uma estação de correio, chamadas de Parejaba ou Parehá: “Ali chegava o mensageiro de um ponto e deixa sua bolsa com as mensagens ou a entrega a outro que estaria esperando para continuar a marcha e fazê-la chegar o mais rápido possível a seu ponto de destino” (Caride & Vivante, 1942, p. 77).

A diversidade de estratégias comunicativas dos povos amazônicos demonstra nos casos encontrados e relatos outras formas de comunicação nesse período. O povo Catuquinas ou Katukina utilizava uma tecnologia por um sistema de percussão subterrânea para se comunicar entre as aldeias: o Cambarisú. Caride e Vivante (1942, p. 80) citam o testemunho do alemão José Bach em 1897 que conheceu o artefato com descrição dos detalhes. A tecnologia consistia na utilização de sons por meio da vibração no subsolo:

De uma maloca a outra se chamam e conversam mediante golpes especiais. É muito possível que os cambarisú se relacionem através das vibrações do subsolo. Quando o indígena operador golpeia com a clava sobre o instrumento, no cambarisú de outra maloca, distante várias milhas, se reproduz um som de chamada, ou seja, o golpe do operador é reproduzido a mais de quatro mil metros. Cada maloca tem sua série de sinais.

Mesmo que citados aqui de forma exploratória e inicial, a Poranduba, o Parejará e o Cambarisú compõem um conjunto a ser estudado e aprofundado nas relações e nos estudos sobre comunicação e jornalismo pré-colombiano. A confiabilidade na fonte escrita como estrutura de expressão de uma verdade (Aguiar, 2017) impede a possibilidade de encontrar outras estruturas que revelam questões do presente. Como as estratégias baseadas na escuta, com foco no ouvinte ainda podem repercutir no uso comunicativo do áudio pelas comunidades na atualidade? A mediação do áudio no contexto do rádio expandido se insere na perspectiva de etnomídia de forma emancipadora?

Etnomídia e a mediação no Rádio Expandido

A identidade etnomídia indígena contém em seu DNA a luta dos povos originários pela terra e pelo direito de ser e de existir, isso desde a chegada dos europeus. Tem se estabelecido como elemento fundamental de resistência, representatividade e de diálogo com a sociedade brasileira, constituída a partir de um pensamento ocidental/estadunidense. Essa comunicação não é meramente um aparato técnico, um corpo estranho que chegou na comunidade. Pelo contrário, de acordo com Nascimento (2020), faz parte do lugar, ao dialogar com a ancestralidade, respeitando o tempo e o espaço indígena. Constitui-se em uma comunicação comunitária emancipadora e decolonial, livre das amarras do fazer tradicional jornalístico – limitado pela lógica do tempo capitalista. Por ser assim, a etnomídia indígena forma sua própria identidade ao mesmo tempo em que se constitui como um novo elemento de mediação (Martín-Barbero, 2003) entre a ancestralidade e os ritos de socialidade (Nascimento, 2020) de um determinado povo.

Etnomídia está inserida em uma rede complexa de conceitos e práticas, que no entendimento de Barbosa (2019), ao fazer um estudo de caso dos Tupinambás na Bahia, atua para conectar o índio ao mundo ocidental ao mesmo tempo em que ele se apropria desses aparatos tecnológicos para reforçar sua identidade, resistência e existência como ser indígena. Ou seja, não se trata de meramente uma instrumentalização das novas tecnologias da informação e da comunicação para que as novas gerações de indígenas se incorporem ao mundo digital ocidentalizado, esquecendo assim de suas tradições e ancestralidade.

No caso dos Tupinambás, Barbosa destaca que a partir de 2001 eles formaram uma rede online – buscando congregar todas as etnias da região Nordeste brasileira – onde se praticava princípios da etnocomunicação, desenvolvidos pelos próprios nativos como mecanismos de resistências e de diálogos com a sociedade nacional.

Um dos exemplos de etnomídia desenvolvida por essa rede foi a série de e-books “Índios na visão dos índios” da ONG Thydewá (http://www.thydewa.org/). Um desses e-books foi produzido a partir do material coletado pelo povo Kariri-Xocó, localizados na região baixa do Rio São Francisco, no município alagoano de Porto Real do Colégio. Eles se utilizaram dos aparatos de comunicação para contarem suas realidades e histórias para os não indígenas, numa perspectiva contra hegemônica3.

A questão do “coração” como sendo fundamental para os Kariri-Xocó produzirem o material, como foi explicado na introdução do e-book, é um dos pontos centrais para reconfiguração dos meios a partir da narrativa etnomídia indígena. Nascimento (2020) explica que esse jeito de fazer comunicação é carregado de sentimentos, ritos e ancestralidade, numa lógica diametralmente oposta da produção de jornalismo dos grandes veículos de comunicação hegemônica, por exemplo.

O som na etnocomunicação implica um local de afeto, de conexão, onde o canto, o poema e a fala ritmada – pelo mesmo afeto que nos forma – exercem a função de conquista, e implicam a necessidade de articular informações que contribuam para a amplitude do ser indígena [...] São saberes comunicativos que compõe ensinamentos e cosmovisões – filosofias originárias – que fundamentam todo um viver, uma identidade formada na partilha e na escuta, que nos afasta das rotinas mecânicas de uma sociedade inundada das necessidades materiais do capitalismo (Nascimento, 2020, p. 4).

Para Santi e Araújo (2019) a “etnogêneses” pode ajudar a entender melhor os princípios da etnocomunicação. Etnogêneses, conforme Bartolomé (2006) é um conceito usado pela antropologia que ao longo do tempo serviu para dar conta “do processo histórico de configuração de coletividades étnicas como resultado de migrações, invasões, conquistas fissões ou fusões”. Mas o autor observa que atualmente o conceito também tem sido utilizado para “análise dos recorrentes processos de emergência social e política dos grupos tradicionalmente submetidos a relações de dominação”.

Dessa forma, Santi e Araújo (2019) ressaltam que no caso dos povos indígenas brasileiros, a etnogêneses está baseada em princípios como a luta pelo território e pelo reconhecimento como ser indígena. Esses, no entendimento dos autores, também são alguns dos elementos fundantes que compõem a produção da etnocomunicação praticada “pelos Movimentos dos Povos Indígenas”.

Numa linha de raciocínio similar, Nascimento (2020, p. 78) reforça que “a necessidade de transformar os meios de comunicação em meios que atendam as demandas populares, acontecem nesse mesmo sentido de resistir culturalmente frente à mídia que chamaremos de hegemônica”. Se para Nascimento (2020) o reforço à utilização dos meios e da tecnologia dos brancos como estratégia de luta interna, o argumento se aproxima do conceito de mediações de Martín-Barbero (2003). Para o autor, a mediação se define como um campo nos quais a hegemonia é transformada por dentro, no sentido do trabalho e da vida comunitária.

O mapa proposto por Martín-Barbero (2003, p. 292) como um “mapa noturno para explorar o novo campo” é baseado na cotidianidade familiar, a temporalidade social e a competência cultural. Os três pontos são envolvidos pelas ações da mídia, negociações de sentido, visões de mundo, subjetividades que impactam na luta entre as posições antagônicas na sociedade. Por outro lado, também é importante pensar que olhar para o conceito implica o reconhecimento de que o consumo cultural que marca um lugar de participação simbólica das audiências com apropriações e reapropriações insere o indígena como parte da produção em nosso caso. O epistemicídio e a perseguição pela racionalidade colonizadora coloca a comunicação indígena e os povos indígenas para além dos consumidores que extrapolam seus limites a partir do consumo do hegemônico, mas se propõem a produzir a partir do que é hegemônico.

Exemplo disso está no entendimento de Nascimento (2020) sobre como os meios etnomidiáticos funcionam como uma interlocução das tribos com a sociedade brasileira, a partir da utilização de estratégias como a webrádio Rádio Yandê. A autora fez um estudo de caso da comunicação desenvolvida pela a primeira rádio etnomídia do Brasil, feita inteiramente por indígenas, fundada em 2013. Nascimento (2020) percebeu que as práticas comunicacionais da rádio – independente da comunidade em que ela esteja atuando – funciona como uma mediação entre as matrizes culturais da ancestralidade com a socialidade da tribo.

Esse reforço à utilização do áudio demonstra também o protagonismo radiofônico inserido em diferentes espaços do Brasil que tem se reconfigurado ao longo dos anos. Caracterizado pela sua simplicidade, tem um potencial enquanto difusor de informações por conseguir chegar nos quatro cantos do país. No caso da Rádio Yandê, entra na perspectiva de Kischinhevsky (2016) que entende o rádio como um meio que se expandiu para além das ondas hertzianas, incorporando outras formas de se consumir o áudio com os dispositivos móveis, para além do tradicional AM e FM. O processo de expansão do rádio se deu através da evolução dos meios sociais digitais, sendo necessário a incrementação dessas novas tecnologias ao rádio. Mas e o rádio que está na linguagem sonora em formato de áudio no WhatsApp? E o rádio que se transforma em caixa de som no centro da Comunidade Indígena? Se tem imagem é rádio?

A perspectiva emancipadora na comunicação indígena

Os conceitos aqui desenvolvidos estão inseridos na perspectiva de um estudo de caso (Yin, 2001) que permite compreender as dinâmicas e abordagens por meio dos fenômenos expressos dentro do contexto de produção do ÁudioZap Povos da Terra, do Podcast Saúde no Chão de Aldeia e do Podcast Áudio Wayuri. A coleta privilegiou um estudo sobre um conjunto de edições baseados na escuta de dois episódios de cada um dos produtos. A partir disso, desenvolve-se uma descrição e análise a partir das perguntas de pesquisa listadas na introdução e dos seguintes critérios: I) Dinâmicas da ancestralidade, da oralidade e da etnomídia indígena; II) Configurações do Rádio Expandido e Hipermidiático na produção voltada para o WhatsApp no contexto da pandemia do novo coronavírus; III) Perspectiva emancipadora e decolonial na produção que considere os saberes e línguas dos povos indígenas.

O ÁudioZap Povos da Terra é um projeto de extensão4 vinculado à Faculdade de Comunicação e Artes (FCA), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A meta principal do projeto é fortalecer a rede de informações preventivas para o enfrentamento da Covid-19, tendo como público-alvo os povos originários aldeados em terras de Mato Grosso. O projeto busca compartilhar áudios informativos pelo WhatsApp, que em decorrência da expansão e hipermidiatização do rádio permitiu que esses novos formatos de produção sonora em um contexto de convergência.

Os áudios foram pensados para evidenciar o protagonismo dos povos originários e assim trabalhar a oralidade e manter a raiz sonora como característica do rádio. Então a estrutura básica dos programas é dividida da seguinte forma: inicia-se com uma fala introdutória dos estudantes que fazem a locução do episódio. Posteriormente temos a fala dos indígenas em língua nativa sobre a temática abordada. Depois o/a estudante introduz o especialista do episódio. Nesse caso, o especialista é aquele profissional que transmite a mensagem científica durante o programa. Depois do especialista, o estudante apresenta o quadro “Conexão Indígena”, um momento para compartilhar as vivências e saberes frente ao coronavírus nas aldeias pelos indígenas. Por fim, o estudante locutor volta para dar os créditos final, informando um número de WhatsApp que serve como meio de comunicação para aqueles que desejarem contribuir com o projeto.

O projeto tem caráter informacional, mas também intercultural uma vez que é executado nas línguas originárias indígenas, ele atende em média 7 etnias (Bororo, Chiquitano, Kurâ-Bakairi, Paresí, Tapirapé, Umutina, Xavante) apoiando o fortalecimento linguístico e epistêmico das comunidades, e endossando o processo de decolonialismo. O ÁudioZap Povos da Terra tem sua divulgação central nos grupos de WhatsApp, mas começou a armazenar as produções na plataforma digital de áudio Spotify5, buscando socializar o material com pessoas não indígenas e objetivando uma maior difusão do trabalho realizado.

O podcast Saúde no Chão de Aldeia é uma produção da Operação Amazônia Nativa (OPAN) – uma organização indigenista histórica que desde o final da década de 60 trabalha com diferentes povos indígenas de Mato Grosso numa perspectiva de lhes darem protagonismo por meio da cultura, de seus modos de organização social, pela gestão de seus territórios e recursos naturais, com autonomia e de forma sustentável6.

A primeira edição do podcast foi ao ar em 15 de abril de 2020, um mês após a Organização da Saúde Mundial ter declarado o novo coronavírus como uma doença epidêmica em escala global7. Percebendo a falta de políticas públicas do Governo Federal para o enfrentamento da questão no contexto dos povos originários, a Opan encontrou no rádio expandido e hipermidiático uma forma de conscientizar os indígenas quanto a gravidade da doença. “Este é mais um canal da OPAN, criado para levar mensagens para os povos indígenas, em um momento crucial de prevenção e isolamento social, como forma de combate ao novo coronavírus8”.

O podcast – mesmo estando inserido numa perspectiva tecnológica ocidental – emprega uma dinâmica decolonizadora e emancipadora como produção indigenista por compreender o tempo indígena e dialoga com a ancestralidade e oralidade da cosmologia indígena. Como exemplo de transmissão de saberes por meio da oralidade o podcast nos traz na edição de 31 de julho de 20209 reflexões sobre a medicina tradicional indígena no combate ao novo coronavírus e como ela não está desassociada da medicina ocidental.

Essa edição conta com participação da historiadora e antropóloga Anna Maria Ribeiro Fernandes Moreira da Costa, que explica todo o processo espiritual em que os pajés do povo Nambiquara do Cerrado (região noroeste de Mato Grosso) passam para curar os enfermos da tribo. Na mesma edição, para refletir sobre os conhecimentos tradicionais dos indígenas no combate a pandemia, também há a participação de Ibã Sales, cacique, xamã, mestre dos cantos da aldeia Chico Curumim do povo Huni Kuin, no oeste do Acre. Durante o programa ele exibe um canto na língua de seu povo, “para soprar todas as doenças longe de nós (Saúde no Chão da Aldeia, 2020)”. Essa fala no idioma nativo também faz parte do caráter emancipador e decolonial da etnomídia (Nascimento, 2020).

E como característica da transmissão de saberes pela oralidade, o xamã explica em sua entrevista ao podcast que essas linguagens tradicionais foi um conhecimento repassado por seu avô. Ao final do podcast, a jornalista da OPAN, Liebe Lima uma das locutoras e responsáveis pelo projeto, deixa um contato para que os indígenas possam enviar mensagens via aplicativo WhatsApp e também contribuírem com a construção da programação, relatando como “estão resistindo a Covid-19 no chão de suas aldeias”. A locutora também pede aos povos indígenas para que traduzam o áudio “para quem não entende bem a língua portuguesa”. O material também é divulgado em plataformas digitais como o facebook e o twitter, além de ter o potencial de ser disponibilizado em plataformas de podcast como SoundCloud, Spotify e Deezer. Tudo isso são estratégias para que o podcast chegue mais longe, atingindo diferentes grupos indígenas em Mato Grosso.

Por fim, nossa análise é voltada ao Podcast Áudio Wayuri10 da Rede de Comunicadores do Rio Negro. Os áudios começaram a ser produzidos em novembro de 2019 e a atuação teve em torno de dois produtos semanais desde o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Para entender o contexto das ações, a rede é formada por 20 comunicadores indígenas de 10 etnias do Rio Negro, no Estado do Amazonas. Os indígenas que formam a rede são oriundos dos povos Baré, Baniwa, Desano, Tariano, Tuyuka, Tukano, Wanano, Yanomami, Piratapuia e Hup’dah. Na descrição do Spotify, a indicação ainda era o boletim produzido de forma mensal, mas que ganhou força durante o período da quarentena com a intensidade da temática sobre saúde e a distribuição em plataformas de podcast como o Spotify e pelo WhatsApp nos grupos das comunidades.

Utilizamos aqui dois programas distribuídos nos dias 13 de maio de 2020, intitulada “Vozes das lideranças do Rio Negro na pandemia de Covid-19 #1 com Sr Maximiliano Menezes (Tukano)” e no dia 24 de setembro, com o tema “Boletim Wayuri_Programa 54_V Assembléia Geral Eletiva da CAIARNX). A temática sobre coronavírus começou a ser abordada pelo podcast no dia 24 de fevereiro de 2020 com o alerta da chegada da doença no município de São Gabriel da Cachoeira. A cidade é considerada a mais indígena do Brasil, com cerca de 90% da população e falante de mais de 10 línguas, sendo que quatro oficializadas (tukano, baniwa, nheengatu e yanomami).

No caso do episódio de 13 de maio o líder do povo Tukano Maximiliano Menezes explica as medidas adotadas e a necessidade dos cuidados relacionados ao ambiente próprio e as características da saúde indígena. O conceito de poranduba e da etnomídia se misturam na proposta de uma conversa aberta, sem um modelo de entrevista pergunta-resposta que incentiva a performance do próprio comentarista com uma abertura e término da apresentadora.

A média de tempo possibilita a escuta de 10 a 15 minutos e em alguns episódios a rede privilegia a distribuição de pequenas sínteses noticiosas na perspectiva dos indígenas. Em alguns casos, procuradores do Ministério Público Federal também participam para explicar os direitos dos povos indígenas sobre o período do novo coronavírus. Esse formato de oralidade que reúne aspectos da etnomídia e da ancestralidade também fica evidente na cobertura da V Assembléia Geral Eletiva da CAIARNX que reúne os povos do Rio Negro.

O formato também privilegia o que Nascimento (2020) chama de gramática da sonoridade etnomidiática que evidencia a importância do rádio expandido na produção alternativa dos povos indígenas. A paisagem sonora é formada pelos chocalhos, barulhos com os sons das florestas característicos do cotidiano. A menção aos “parentes” e a abertura com as línguas nativas de acordo com o povo que está participando também são partes desse cotidiano. Por fim, vale mencionar a diversidade de vozes nas coberturas dos eventos que passam de lideranças para jovens que participam das ações. O foco, segundo a própria descrição dos episódios e das narrações realizadas é ouvir os diferentes pontos de vista, da experiência e de novas propostas. É interessante notar que o privilegiar o ouvir também é algo presente nas próprias falas em diversos momentos nos quais demonstra-se a importância do compartilhar os episódios e de seguir aquilo que está sendo compartilhado.

Considerações finais

As características da ancestralidade, da oralidade e da etnomídia estão presentes nas apropriações e prioridade às fontes próprias com a criação de uma linguagem próxima. “Um pirarucu de distância” foi a analogia utilizada em um dos episódios para explicitar a importância do distanciamento de dois metros na saída da aldeia em busca de políticas sociais como auxílio emergencial.

Os áudios podem ser considerados em sua essência como ferramentas etnomidiáticas, como aquela comunicação que faz parte do lugar (Nascimento, 2020), ajudando na mediação dos costumes e saberes da tribo ao mesmo tempo em que também é afetada e reconfigurada por esses processos de socialidade (Martín-Barbero, 2003).

É um tipo de oralidade que ao mesmo tempo que transmite saberes aos indígenas mais novos – inseridos nesse contexto do mundo cibernético atual – também ajuda para que os de fora, os não indígenas, respeitem e compreendam o modo de vida e a cultura dos povos originários; isso, que por sinal, é outra forte característica da etnomídia. Por outro lado, como na Poranduba, o principal aqui não é o que é transmitido, mas a possibilidade da escuta, de ouvir algo e reconhecer-se nesta escuta.

E neste período da pandemia do novo coronavírus, o áudio tem desempenhado uma função essencial, sendo uma importante ferramenta para levar informações aos povos originários em regiões de desertos noticiosos. Com isso, a oralidade (quem) e a escuta se tornam importantes aliadas neste processo. A expansão e hipermidiatização do rádio ainda tornou a produção de alguns formatos acessíveis aos povos indígenas com estratégias etnomidiáticas que remontam à possibilidade da escuta das narrativas (Poranduba) com estratégias e tecnologias comunicativas inseridas em suas características e tradições.

Referências

Aguiar, P. (2017). Poranduba: a noção tupinambá de narrativa e o perspectivismo comunicacional. Cambiassu, São Luís/MA, v.13, nº 21.

Ballestrin, L. (2019). América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política. [online]. 2013, n.11, pp.89-117. Anais do 19º Congresso Brasileiro de Sociologia 9 a 12 de julho de 2019. UFSC - Florianópolis, SC.

Bartolomé, A. (2006). As etnogêneses: velhos atores e novos papéis no cenário cultural e político. Mana, v.12, n.1 Rio de Janeiro.

Beltrán, L. R., et al. (2009). La Comunicación antes de Colón: tipos y formas en Mesoamérica y los Andes. La Paz: IBEC, 2009.

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1 Emergência Indígena. Disponível em: http://emergenciaindigena.apib.info/dados_covid19/#rede

2 Boletim Epidemiológico da SESAI. Disponível em: https://saudeindigena.saude.gov.br/corona

3 Os e-books do projeto podem ser acessados pelo portal da Thydewá - https://www.thydewa.org/projetos/indios-na-visao-dos-indios/

4 Projeto de Extensão ÁudioZap Povos da Terra https://sistemas.ufmt.br/ufmt.siex/Projeto/Detalhes?projetoUID=6421

5 Endereço do ÁudioZap Povos da Terra no Spotify. Disponível em: .

6 As informações sobre o trabalho da Opan foram retiradas do site da entidade na parte de “Quem Somos”. Disponivél em: https://amazonianativa.org.br/sobre-a-opan/.

7 Fonte da informação: página eletrônica do Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS). Disponível em: https://www.unasus.gov.br/institucional/unasus

8 Esse comentário sobre a essência do projeto está disponível em https://amazonianativa.org.br/saude-no-chao-da-aldeia/

9 Podcast Saúde no Chão da Aldeia. Disponível em: https://amazonianativa.org.br/saude-no-chao-da-aldeia/

10 Podcast Áudio Wayuri. Disponível em: https://open.spotify.com/show/4uOdGefml3DNMXfKI1oeRB?si=nt6781hCT-lq5e9qRaqIQmg