Aldeia digital. O protagonismo ameríndio nas redes, a partir da experiência Krahô

 

Digital village. Amerindian protagonism in networks, from the Krahô experience

Aldea digital. Protagonismo amerindio en redes, desde la experiencia Krahô

e-ISSN: 1605 -4806

VOL 24 N° 111 Mayo - Agosto 2021 Monográfico pp. 33-46

Recibido 09-05-2021 Aprobado 20-08-2021

https://doi.org/10.26807/rp.v25i111.1771

Thiago Franco

Brasil

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Resumo

A etnia Krahô habita um território complexo, uma rede de redes, de espaços físicos que reúnem as diversas aldeias através de caminhos e interações de diferentes tipos. Assim, esta pesquisa relata uma experiência em um território animado, feito de espíritos, objetos falantes, animais interagentes e uma complexa rede de interações que passa por rituais. Sobretudo, mapeia nos últimos anos, esta complexidade de redes, espaciais, animistas, relacionais, no processo de digitalização das aldeias e territórios, a partir da experiência Krahô. A pesquisa identificou outras inúmeras etnias do Brasil, que também desloca suas relações, territórios, rituais e povos, todos conectados na web.

Palavras-chave: comunicação; digital; etnia; mapeamento de redes.

 

Abstract

The Krahô ethnic group inhabits a complex territory, a network of networks, of physical spaces that bring together the different villages through paths and interactions of different types. Thus, this research reports an experience in an animated territory, made up of spirits, talking objects, interacting animals and a complex network of interactions that goes through rituals. Above all, it maps in recent years, this complexity of networks, spatial, animistic, relational, in the process of digitizing villages and territories, based on the Krahô experience. The survey identified countless other ethnicities in Brazil, which also displaces their relationships, territories, rituals and peoples, all connected on the web.

Keywords: communication; digital; ethnicity; network mapping.

 

Resumen

La etnia Krahô habita un territorio complejo, una red de redes, de espacios físicos que unen los diferentes pueblos a través de caminos e interacciones de modos distintos. Así, esta investigación reporta una experiencia en un territorio animado, conformado por espíritus, objetos parlantes, animales que interactúan y una compleja red de interacciones que pasa por rituales. Sobre todo, mapea en los últimos años esta complejidad de redes, espaciales, animistas, relacionales, en proceso de digitalización de pueblos y territorios, a partir de la experiencia Krahô. La encuesta identificó innumerables otras etnias en Brasil, que también desplaza sus relaciones, territorios, rituales y pueblos, todos conectados en la web.

Palabras clave: comunicación; digital; etnia; mapeo de la red.

 

Introdução

O artigo traz como tema o processo de digitalização das aldeias Krahô que, na percepção desta pesquisa, ocorre dentro de uma alteração da condição comunicativa, no modo de habitar um lugar (Di Felice, 2009). A alteração não ocorre apenas no âmbito das relações sociais, mas dentro de uma ecologia que envolve um processo de interação/interatividade em ambientes digitais e não digitais, levanto em consideração os rituais, as práticas xamânicas, o espaço de voz e afirmação étnica. Além de tudo, no processo de digitalização foi possível visualizar a extensão das redes Krahô, a partir de monitoramento por software.

A pesquisa do artigo foi pensada em etapas intercaladas com trabalho de campo em espaço digital e não-digital. Cada imersão obedeceu a um critério temporal diferente. O estudo faz parte da linha de pesquisa Teko do Centro Internacional de Pesquisa Atopos (Universidade de São Paulo - USP), cujo objetivo é estudar o processo de digitalização dos povos indígenas do Brasil e suas formas de comunicação.

No modo presencial, algumas visitas duraram trinta dias e a mais extensa perdurou por nove meses, em período ininterrupto. Os períodos de pesquisa in loco somaram 15 meses, em território Krahô, antes do período pandêmico. Foi utilizado observação participante, caderno de campo, registro audiovisual, de acordo com as normas éticas vigentes no Brasil.

A pesquisa digital compreende uma observação maior, que começa em 2013 e se estende até 2020. Foram observados os atores conectados, os seus conteúdos e os usuários interagentes. Foram utilizados os softwares Gephi e QGIS para montar, tratar e visualizar a rede digital Krahô e os pontos de acesso de acordo a geolocalização de cada usuário. Todos os personagens que aparecem no texto assinaram termos de aceitação da pesquisa.

Mapeando as redes Krahô

Os Krahô são condutores da pesquisa para desvelar seus seguidores, outras etnias conectadas à Internet. Assim, abordaremos primeiro algumas das especificidades dessa etnia, que nas suas particularidades conecta-se com outras comunidades distintas, mas que se reconhecem na condição de indígena, em ambiente digital. Os Krahô ampliam suas redes já existentes, conexões que dispõe de elementos humanos e não-humanos.

No território Krahô existem várias aldeias interligadas, que estão orquestradas em uma rede não-digital. Cada uma constitui núcleos, com um cacique1 e outras lideranças, que utilizam o pátio para ações do uso comum, partilha da comida, rituais, tomada de decisões e comunicação das decisões.

Figura 1: Disposição do território – imagem de satélite

Fonte: elaborado por Ramos e Costa (2009) apud Costa (2013, p.54).

Na figura 1, a linha amarela representa as trilhas que vão tecendo a rede Krahô. Galloi (2004) defende que a ideia de território entre as etnias brasileiras é algo mais volátil. O território não é necessariamente a terra demarcada. Logo, é possível dizer que entre os Krahô, a concepção de território passa pelas lembranças passadas.

A terra demarcada está ligada à questão jurídica, enquanto que o território não tem limites bem definidos. Lembramos ainda que essa terra2 demarcada não é original da etnia Krahô. Galloi (2004) salienta que a concepção mais ampla de território pode levar, em muitos casos, ao conflito e às disputas por terras.

Mellati (1970, p. 54) acredita que cada núcleo tenha surgido da cisão de uma aldeia anterior, devido aos atritos entre facções. Além disso, aldeias inteiras podem mudar de lugar por diversos motivos, como o acesso à água e comida. O interessante é que cada aldeia está ligada a outras por trilhas, em forma de rasgos na vegetação.

Visualmente, tem-se a primeira impressão da rede não-digital Krahô. As trilhas e/ou os caminhos feitos pelos povos, em terras brasileiras, já foi tema de Holanda (1994) no começo do século XX. O pesquisador detalhava como as cartografias nativas extrapolavam a redução da ideia de imagem mental, para um emaranhado de dispositivos de orientação geográfica, o que revela uma forma particular de se caminhar na mata. Dessa forma, a compreensão reticular entre as comunidades é bem mais complexa. Costa (2013) mostra que no ano de 2009 foram mapeadas 25 aldeias em um território Krahô, de 302.533 hectares, todas interconectas por caminhos na mata.

A noção da formação do pjê (território, na língua Krahô) não se limita a terra demarcada, mas também existe a percepção de uma sensibilidade não-ocidental, que estabelece uma profunda relação com a sustentabilidade. Costa (2013) mostra que existe um imenso espaço vago entre as aldeias, não por acaso, mas para a gestão de recursos alimentares e equilíbrio da biodiversidade do território.

No intuito de entender como a comunicação ocorre nas aldeias Krahô, deve-se levar em consideração que o mehῖ3 (nativo) não se comunica apenas com humanos, mas também com os não-humanos. Essa perspectiva reticular é ampliada para as categorias dos animais, dos vegetais e dos minerais e todos esses elementos escapam nas redes digitais.

Viveiros de Castro (2013; 1996), apesar de não tratar diretamente daqueles que falam a língua Jê, descreve de forma geral como ocorre o processo comunicacional na floresta. Humanos e animas são «gente», compartilham de «espíritos» semelhantes, logo o que muda é o corpo e por esse motivo a comunicação se torna possível.

Sobretudo, habitar junto aos Krahô nos permitiu vivenciar os momentos cerimoniais e as performances se tornaram mais evidentes. Seeger (2015) descreve bem as performances em seu trabalho de campo junto a outra etnia, os Kῖsẽdjẽ. Tanto os Krahô como os Kῖsẽdjẽ são de origem Timbira e existem algumas aproximações que podemos notar, apesar da distância territorial que os separa.

Seeger (2015) percebe a performance entre os Kῖsẽdjẽ da seguinte maneira:

A performance de qualquer cerimônia, como a Festa do Rato, implica relações aparentemente atemporais entre homens, mulheres, animais, genitores, doadores e receptores de nomes sendo todas elas expressas pelo canto, pela dança, pelo silêncio, pela oferta e pelo consumo de alimento durante o período cerimonial. Mas cada performance implica também atores específicos, que fazem certas escolhas quanto a quem irá cantar, para quem se cantará, quem caçará, quem comera o quê, e às minúcias de uma infinidade de decisões e relações potenciais envolvidas na cerimônia apenas em abstrato. (Seeger, 2015, p.36).

Nesse caso, Seeger (2015) está centrado na Festa do Rato. É um ritual que não existe entre os Krahô. Contudo, o antropólogo consegue estabelecer uma definição geral das características do arranjo performático que se aproxima dos Krahô. Todos os elementos percebidos por Anthony Seegger foram identificados entre os Krahô em amji kin (rituais comemorativos), como os da Festa da Batata e da Festa da Laranja (Jàt Jõ Amji kin e Rãj Jõ Amji kin), que são rituais de passagem. Nesses rituais, pode-se perceber toda orquestração, desde a escolha dos cantores, com a participação de outras aldeias, até as dietas alimentares sugeridas de acordo com a idade.

A performance estabelece ligação com a linguagem. Ao performatizar4, elementos sonoros, imagéticos e corporais emergem durante o ritual. Logo, a construção linguística Krahô parece não estar presa apenas à oralidade. Em um ritual do tipo Tep me Têre (Ritual dos peixes e das lontras), usam-se máscaras de esteiras que cobrem todo o corpo. Além das músicas, existe um caminho a ser percorrido, o que adiciona trânsito às cenas. Mais do que isso, o ritual repete situações que ocorrem na mata e que são implicadas em histórias mitológicas. Toda a performance é sincronizada com a linguagem corporal, sonora e imagética.

Os elementos imagéticos estão presentes no habitar Krahô na forma de imagens mentais, sombras projetadas, reflexos na água e no que convencionamos chamar de “espírito”. Carneiro da Cunha (1978, p.10) lembra que karõ é o que habita o corpo e ao mesmo tempo que pode ser aquilo que é projetado. Logo karõ (me karõ, no plural) pode ser espírito ou reflexo, a própria imagem. Deve-se ressaltar que esses elementos não são estáticos.

Em um fim de tarde uma criança Krahô chorava desesperada com sua sombra. Ela corria de um lado para o outro e a sombra a seguia. Para aquela criança, não era o sol que a impedia de escapar de sua sombra, era o karõ que estava to xwyj nõ (abusando) e que insistia em assustá-la. Outros meninos riam e o desafiavam a escapar de seu legado.

Observa-se também as sonoridades implícitas. Uma comunicação nem sempre está arranjada em uma estrutura linguística/semântica. Um assovio durante a madrugada pode dizer muitas coisas, desde o convite a uma caçada até mesmo o encontro com uma amante. Existem diversas maneiras sonoras de se comunicar, de entoar o cuhtoj (maracá) e, em certas situações, o silêncio de uma pessoa revela uma música inteira.

Imagem 1: Hotxuá canta sem revelar a letra e o som

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Fonte: autoria própria

Durante o Jàt Jõ Amji kin (ritual referente à batata), os Krahô correm com toras de madeira maciça. Desejando que o ritual transcorra bem, o hotxuá5 Jõwàt Krahô (Paulo Krahô) canta para as toras. Nenhum som é emitido da boca dele. Apenas Jõwàt sabe qual é a música que está sendo cantada. A letra não pode ser revelada, pois é sagrada.

Os Krahô gravam o som e as imagens. Os conteúdos são compartilhados pelo Whatsapp. O registro está centrado no som que o xy invoca. Tudo é ritmado com o xy que está amarrado logo abaixo do seu joelho. O pisar no chão o movimento dá o ritmo ao xy. O silêncio de Paulo e as sonoridades do xy desvelam o que tem importância e que escapa da estrutura semântica.

Nesse sentido, acrescenta-se que a combinação simbólica/performática, ordenadas de acordo com cada ambiência estabelece uma experiência estética/sensível. Obviamente o estético não obedece aos moldes ocidentais. A palavra estética nos vem à mente de forma fácil, mas talvez não seja prudente o uso do termo.

Os nossos padrões simbólicos não alcançam uma tradução exata. O termo que traduziria essa experiência poderia ser aesthesis (αἴσθησις), provavelmente seria mais apropriado. Aesthesis é anterior ao conceito de estética, não condiz com uma área da filosofia ou sistema de reflexão votada a arte, mas ao âmago das sensações, conforme lembra Mignolo (2010).

O arranjo performático também não deve ser traduzido pelo termo sagrado. Os Krahô entendem que o sagrado está relacionado aos ocidentais e suas religiosidades. Durante o campo, Renato Yahe me disse que existe uma palavra para característica essa condição. Trata-se do hakràj, que seria algo como aquilo que tem importância.

A experiência desses povos é muito particular, leva em consideração as condições anímicas para a atuação do hakràj, uma pauta de importância fora da grande mídia tradicional, e que agora está conectada à Internet. São experiências compartilhadas em redes digitais que assumem um papel de desvelamento ao externo, ao que está fora da comunidade e que conecta outras etnias e o ocidente. Quando os Krahô compartilham seus conteúdos são reconhecidos pelos seus pares, outras etnicidades e é um modo de ocupação do espaço digital, perante as diferenças externas, um lugar de afirmação e resistência.

Digital-krῖ e os espaços de debates

Até setembro de 2015, não havia energia em nenhuma das aldeias do território. Com a eletrificação, os eletrodomésticos apareceram em quase todas as casas. Na verdade, a falta de energia nunca impediu os Krahô de ter acesso aos eletrônicos ou até mesmo à Internet. E as aldeias digitais (Digital-krῖ), projetadas na Internet, se tornaram extensões do território. Um dos primeiros perfis do Facebook apareceu ainda no ano de 2011. Testes de Internet já haviam ocorrido, no território, em 2005 e 2006. O que não era movido à bateria, estava ligado ao gerador. O acesso às redes digitais podia acontecer ainda durante as visitas à cidade.

Até o ano de 2015 tudo era movido à bateria. Simultaneamente a quantidade de lixo eletrônico também se espalhou pelas aldeias. Os rádios eram ligados em volumes estrondosos, em vários ritmos que tocavam ao mesmo tempo. Em determinados momentos parecia uma festa de diversos ambientes musicais. A música é de primordial importância para os Krahô. Ela está presente nos rituais tanto quanto nas práticas diárias. Os ritmos mantêm viva a aldeia e servem para unir a comunidade.

Imagem 2: Dança da Sucuri, entre os Krahô

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Fonte: Facebook

Outro exemplo interessante foi o telefone público implantado na escola, que funcionava por energia solar. Toda vez que o aparelho tocava, se tornava motivo de disputa entre as crianças. O orelhão – como é conhecido o telefone público em diversas partes do Brasil –, aproximava os “parentes” que moravam em outras aldeias e/ou cidades. Porém, com o passar dos meses, o aparelho foi colocado de lado e, logo, os celulares tomaram a importância do telefone arcaico.

A telefonia chegou ao território. Contudo, nem todas as aldeias contavam com telefone e/ou sinal de celular. Na Aldeia Galheiros, que fica cerca de 50 km da Manoel Alves, é preciso andar aproximadamente 10 km, para conseguir um sinal de telefonia móvel. As ligações são feitas do alto de um morro. As redes de trilhas geográficas que conectam as aldeias passam a conectar o restante do mundo, com ajuda de sinas 2G e 3G, tornando os lugares cada vez mais tecnificados ou um tecno-krῖ, (aldeia tecnológica). Visualmente as trilhas são bem simbólicas conforme a imagem na sequência.

Imagem 3: Ponto para telefonemas e sinal de Internet entre os Krahô

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Fonte: Autoria própria

Antes da energia chegar à Manoel Alves, o gerador comunitário era ligado uma vez ao dia. Nesse momento também havia a disputa para carregar as baterias dos celulares, já que as tomadas eram poucas. Enquanto o gerador trabalhava, os mehῖ aproveitavam para atualizar uma conversa ou outra.

Isso não quer dizer que acabaram a cantoria e as reuniões de pátio. A prática é frequente, mas passou a contar com a presença de dispositivos eletrônicos. Cahxêt é professor na Aldeia Manoel Alves e diz que os jovens há alguns anos já não se interessam do mesmo modo pelas músicas, rituais e/ou histórias Krahô. Cada vez mais “eles gostam mais de falar no celular, tecnologia, Facebook”6.

A Internet via modem chegou antes da energia. O serviço foi oferecido na escola7 indígena por conta de incentivos do governo federal. Um fato desproporcional, já que o sistema elétrico ainda não estava contemplado. Porém, esse tipo de política sem planejamento não é difícil de ser identificada. Percorrendo as aldeias, é fácil encontrar carcaças de computadores que foram utilizados poucas vezes ou que nem chegaram a servir à comunidade. Além do custo com combustível, os geradores não tinham potência suficiente para mantê-los funcionando.

Imagem 4: Debate no Wýtý

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Fonte: autoria própria

O Wýtý é um dos espaços de discurso e debate, além do pátio (). Na imagem anterior percebemos e oratória dos mais velhos, assim como o ocorre no . Nesse caso, a fala foi dividida com o Kô Po, um bastão que transmite e transparece sabedoria a quem está falando. Ao mesmo tempo, ao fundo outros membros da reunião estão navegando na Internet. A imagem é marcante porque mostra a realidade tradicional, na era digital. Da mesma forma que em uma sala de aula, o orador cobra a atenção e isso acaba impactando em algum conflito.

Em junho de 2016, o sinal de Internet já estava implantado nas aldeias Manoel Alves e Mangabeira. O wifi é compartilhado por todos, que passam por ali. Ao mesmo tempo, não é difícil de navegar no Facebook e encontrar jovens Krahô se apropriando e dando significados próprios às redes digitais. Nem todos dominam o uso dos dispositivos, então se aglomeram ao lado de quem sabe navegar. Devemos recordar que esses povos são da oralidade e da performance, desse modo, as linguagens audiovisuais são mais atraentes para consumo e produção de conteúdo. A aldeia ganha uma extensão digital, a Digital-krῖ.

Acompanhando as postagens dos Krahô podemos perceber a descoberta e a apropriação de um outro lugar de interação e interatividade, entre humanos e não-humanos. A partir da eletrificação e digitalização, os Krahô lidam com novos desafios. Uma observação que se faz agora é se a implantação da estrutura da rede elétrica e de Internet não vai engessar as práticas tradicionais, que ocorrem historicamente.

Devemos considerar ainda que estes espaços digitais ocupam a importância de um lugar de voz e reivindicação, para demandas locais. É possível acompanhar ações ativistas em ambiente digital (Di Felice, 2013), ou net-ativistas (Franco, et al, 2020), que buscam resolver problemas sobre a proteção dos territórios, benefícios para população local e expulsão de invasores. Todas essas experiências são trocadas com outras etnias, autoridades, apoiadores das causas indígenas, entre outros.

Mapeamos parte dessa rede, na relação com outras etnias. No grafo seguinte é possível ver no lado esquerdo superior, em tom roxo, o cluster Krahô interagindo com seus conterrâneos territoriais, os Xerente na cor amarela. Cada nó representa uma amizade virtual de uma etnia diferente. Na maioria das conexões a língua não é a mesma. Imaginem que cada etnia, uma é cosmologia distinta dos Krahõ, outro universo conectado produzindo informação. A ideia desse artigo era justamente aprofundar em uma etnia, para mostrar a riqueza dessas conexões, que não podem ser esgotadas em um artigo ou uma tese. Estamos diante de um Big Data de informações étnicas.

Figura 02: Rede Krahô em ambiente digital

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Fonte: autoria própria com auxílio do Software Gephi

Desse modo, a partir dos dados públicos conseguimos mapear quais eram as etnias e de que lugar se conectavam. A amostra que foi possível mapear nos mostra etnias acessando a Internet, em todo Brasil. Foram mapeados 650 perfis: 9288 conexões entre esses perfis do Facebook, totalizando 127 etnias identificadas, de 36 troncos linguísticos. Levamos em consideração que o estudo censitário do governo brasileiro aponta a existência de 305 etnias que falam 274 línguas distintas. Cada coletivo e cada língua é uma possibilidade, uma forma distinta de habitar o mundo.

Figura 03: Posicionamento das etnias conectadas

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Fonte: autoria própria

Com a imagem anterior percebemos que o sinal de Internet chega as terras demarcadas, mas muitos integrantes dessas etnias estão vivendo em zonas urbanas e/ou acessam o sinal de cidades próximas às aldeias. Em outros casos, as etnias transitam em busca de tratamento médico, melhores condições de estudo e trabalho. Porém são espaços de vivencias momentâneas, sazonais, principalmente entre as etnias que tem terras demarcadas. Todos os anos, vários integrantes Krahô viajam para outros Estados em busca de estudo e retornam meses depois.

Obviamente com a explosão pandêmica de Covid-19, as comunidades têm se preservado mais em seus territórios e o uso de tecnologias continuam sendo uma solução para comunicação com os seus pares distantes. E desse modo todos os dias relatos, relacionamentos afetivos, rituais, performances, experiências são compartilhadas em redes digitais, por diversas etnias no Brasil.

Conclusão

Como observado no processo de digitalização das aldeias Krahô, assume-se o significado de uma alteração da condição do habitar ou seja da alteração não apenas das relações sociais, mas da transformação da interação/ecologia que constitui o habitat desta etnia. De fato a digitalizar-se, além das relações, dos rituais, regularmente filmados e gravados, é o conjunto ecossistêmico que perpassa todos os aspectos da vida em comum. Para entender a complexidade deste processo que, aqui relatamos, é necessário lembrar as particulares condições destas populações que habitam o cerrado, em aldeias comunicantes, interconectadas, porém, que mantem certa distância das cidades. Os modos de operação dentro dos territórios ameríndios tendem a obedecer a suas próprias regras de convivência.

Neste sentido, no âmbito destas culturas, a digitalização assume um conjunto especifico de significados: em primeiro lugar se configura como o não isolamento relacional dos Krahô e, respectivamente, uma intensa relação com as outras etnias com consequente influência da sua própria percepção. Este processo deu início a uma interessante troca com outros povos, como relatado pelo artigo, com influencias na autopercepção e nas redes relacionais.

Um segundo significado é a importância das gravações dos rituais e dos mitos que, uma vez digitalizados, tornam-se disponíveis e, sobretudo, facilmente consultáveis pelos membros das etnias que pelos demais. Sendo uma cultura da oralidade, o acesso aos arquivos digitais facilita a disseminação dos conteúdos culturais, sobretudo entre as novas gerações gerando um importante processo de perpetuação de saberes e de diálogo entre gerações diversas.

Um terceiro significado do processo de digitalização nestas etnias é o começo de um novo tipo de protagonismo que, através do deslocamento nas redes internas e nas redes digitais, permitiu a ruptura do isolamento analógico e o começo de uma interessante diplomacia digital, com as outras etnias e com organizações e instituições externas, também presentes nas redes. Salvo, aqui, as particularidades das redes de trocas milenares que já ocorrem ancestralmente, entre as etnias no norte do Brasil.

Em síntese, a digitalização das aldeias Krahô significa a passagem de um habitat físico limitado a sua topografia, mas obviamente hiperconectado dentro das suas virtualidades xamânicas, e que agora assume uma ecologia relacional ampliada e complexa, aberta as interações com outras etnias conectadas ao digital e com as diversas entidades e instituições que tem a importante função de quebrar com o isolamento histórico da terra demarcada, a qual estas populações nômades foram obrigadas a viver confinadas, de acordo com os processos coloniais.

Referências bibliográficas

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Nimuendajú, C. (1946) The Eastern Timbira. University of California Press.


1 O cacique nem sempre toma as decisões sozinho. Cada aldeia conta com um conselho formado por homens mais velhos que podem mudar ou até impedir a decisão do cacique. Periodicamente existem reunião para tratar dos assuntos diversos da aldeia.

2 Para saber mais sobre a dispersão Krahô a partir do Maranhão e o conflito de terras ocorrido durante as primeiras décadas do século XX, pode-se consultar Costa (2013) e Melatti (1978).

3 Mehῖ: os Krahô preferem ser chamados de mehῖ (aquele que faz parte da etnia).

4 Pode-se encontrar mais informações sobre neologismos da performance na antropologia pela apresentação de Lucas (2005).

5 Hotxuá frequentemente é traduzido como palhaço. Roberto Cahxêt considera que apesar de ser engraçado, apresentar pinturas que lembram um palhaço, a tradução não faz jus ao papel sagrado do hotxuá. “O hotxuá é engraçado. Você pode rir com ele, mas não é um palhaço. Ele participa de rituais sagrados. Pra mim, na nossa etnia, o palhaço é o ihkên. O ihkên faz brincadeira a qualquer hora, não tem preocupação com o que é sagrado. Muitas vezes a mesma pessoa que é ihkên, é também hotxuá. Aí fazem confusão né. O hotxuá faz o ritual com alegria e o ihkên faz alegria fora do ritual”. Conversa com Roberto Cahxêt, coletada no dia 20/07/2016.

6 Conversa com Roberto Cahxêt, coletada no dia 16/07/2015.

7 A maioria das aldeias conta com uma escola bilíngue (Português –Jê), administrada pelos Krahô com recursos do Governo do Tocantins, prefeituras e verbas federais. As escolas começaram a ser implantadas de forma não oficial a partir dos anos de 1970 e dependiam do apoio da Funai. A partir dos anos de 1990 começa o processo oficialização e repasse da educação formal para o governo do Estado do Tocantins. Nimuendajú (1946) relata que na região onde os Krahô moravam (mais próximo da cidade Pedro Afonso) ainda no século XIX, já havia uma escola criada pelo Frei Rafael de Taggia.