O conceito de midiatização nos estudos em migrações:

estudo exploratório das tendências de pesquisa e estado da arte (2001-2021)

 

The concept of mediatization in migration studies: an exploratory study of research trends and state of the art (2001-2021)

El concepto de mediatización en los estudios migratorios: estudio exploratorio de tendencias de investigación y estado del arte (2001-2021)

 

e-ISSN: 1605 -4806

VOL 26 N° 113 enero - abril 2022 Monográfico pp. 216-235

Recibido 31-01-2022 Aprobado 28-04-2022

 

Lucas Arantes Zanetti

Brasil

Universidade Estadual Paulista

[email protected]

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2019-8061

 

Resumo

O presente artigo realiza pesquisa bibliográfica em teses de doutorado e dissertações de mestrado brasileiras encontradas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) entre os anos de 2001 a 2021 que tratam das diversas relações entre mídia e migração (e suas variações terminológicas) com o objetivo de compreender como o conceito de midiatização é trabalhado nas pesquisas científicas da área de Comunicação. O trabalho também pretende mapear as pesquisas no espaço (distribuição geográfica e programas de pós-graduação das defesas) e no tempo (anos de publicação), a abordagem teórico-epistemológica no campo da Comunicação utilizadas e os autores citados que trabalham com o conceito de midiatização na América Latina e Europa. Foram encontradas 26 pesquisas entre teses e dissertações e, após análise qualitativa de cunho exploratório, notamos que o conceito de midiatização é pouco trabalhado pelos pesquisadores da área, e que esta articulação encontra campo fértil para seu desenvolvimento. Pretendemos levantar discussão que posicione a pesquisa entre mídia e migração no campo teórico da midiatização, à exemplo do trabalho de Martino (2021), com mídia e religião. À luz dos autores das teorias da midiatização, propomos a diferenciação desta relação a partir da noção de articulação (midiatização das migrações) em contraste com a perspectiva de proximidade (mídia e migração).

Palavras-chave: Midiatização das migrações. Mídia e migração. Epistemologia da Comunicação. Teorias da midiatização.

Abstract

This article carries out bibliographic research on Brazilian doctoral theses and master’s dissertations found in the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD) between the years 2001 to 2021 that deal with the various relationships between media and migration (and their terminological variations) with the objective of understanding how the concept of mediatization is worked in scientific research in the area of Communication. The work also intends to map the research in space (geographical distribution and postgraduate programs of the defenses) and in time (years of publication), the theoretical-epistemological approach used in the field of Communication and the cited authors who work with the concept of mediatization in Latin America and Europe. Twenty-six researches were found between theses and dissertations and, after an exploratory qualitative analysis, we noticed that the concept of mediatization is little worked by researchers in the area, and that this articulation finds fertile ground for its development. We intend to raise a discussion that positions the research between media and migration in the theoretical field of mediatization, like the work of Martino (2021), with media and religion. In the light of the authors of mediatization theories, we propose the differentiation of this relationship from the notion of articulation (mediatization of migrations) in contrast to the perspective of proximity (media and migration).

Keywords: Mediatization of migrations. Media and migration. Epistemology of communication. Mediatization theories.

Resumen

Este artículo realiza una investigación bibliográfica sobre tesis de doctorado y disertaciones de maestría brasileñas encontradas en la Biblioteca Digital Brasileña de Tesis y Disertaciones (BDTD) entre los años 2001 a 2021 que tratan sobre las diversas relaciones entre medios y migración (y sus variaciones terminológicas) con la objetivo de comprender cómo se trabaja el concepto de mediatización en la investigación científica en el área de la Comunicación. El trabajo también pretende mapear la investigación en el espacio (distribución geográfica y posgrados de las defensas) y en el tiempo (años de publicación), el enfoque teórico-epistemológico utilizado en el campo de la Comunicación y los autores citados que trabajan con el concepto de La mediatización en América Latina y Europa. Fueron encontradas 26 investigaciones entre tesis y disertaciones y, luego de un análisis cualitativo exploratorio, percibimos que el concepto de mediatización es poco trabajado por los investigadores del área, y que esa articulación encuentra terreno fértil para su desarrollo. Pretendemos plantear una discusión que posicione la investigación entre medios y migración en el campo teórico de la mediatización, como la obra de Martino (2021), con medios y religión. A la luz de los autores de las teorías de la mediatización, proponemos la diferenciación de esta relación desde la noción de articulación (mediatización de las migraciones) frente a la perspectiva de la proximidad (medios y migración).

Palabras clave: Mediatización de las migraciones. Medios y migración. Epistemología de la Comunicación; Teorías de la mediatización.

 

Introdução

O presente artigo investiga a produção científica brasileira sobre a relação entre mídia e migrações nas duas últimas décadas (2011 a 2021). Trata-se de levantamento e revisão bibliográfica de teses e dissertações publicadas no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Tal fonte foi escolhida por se tratar de indexador amplo, abrangente e de alcance nacional, cuja ferramenta de pesquisa é sofisticada, permitindo recortes e classificações necessárias ao estudo. Com este levantamento, pretende-se mapear a pesquisa sobre mídia e migrações a partir do levantamento dos seus enfoques teóricos, autores referenciados, anos de publicações, instituições vinculadas às pesquisas e distribuição geográfica no país.

A partir dos dados obtidos, pretendeu-se levantar a discussão epistemológica que enquadra a diferenciação entre a compreensão do fenômeno dos fluxos migratórios enquanto “midiatização”, — a partir das perspectivas teóricas distintas relacionadas a este termo que levam em conta a ideia de “articulação” — e enquanto “mídia e migrações” — levando em conta a diversidade desta relação, que vai desde um entendimento da mídia como “ferramenta” ou sobre o “papel” dos meios de comunicação na representação de migrantes e imigrantes, os estudos culturais e de recepção, a cobertura jornalística e a infinidade de abordagens possíveis mas que possuem ideia de “proximidade” (Martino, 2021).

Nesta discussão, propomos a inserção das questões relacionadas ao especificamente comunicacional (Signates, 2019) no fenômeno das migrações à luz da reflexão proposta por Martino (2021) sobre as metodologias da midiatização, quando o autor realiza um estudo exploratório sobre “mídia e religião” e identifica aspectos importantes para o estado da arte daquele campo, bem como as noções epistemológicas da comunicação e dos estudos em midiatização aplicadas à pesquisa em religião. Como se pretende demonstrar, há uma carência de estudos exploratórios que delimitam o estado da arte da pesquisa entre mídia e as migrações, especialmente no que se refere ao conceito de midiatização sob perspectiva brasileira (Sodré. 2002, 2006; Braga, 2012, 2015; Gomes, 2016, 2017; Martino 2021, 2019; Fausto Neto, 2008, 2010), latina (Verón, 1997, 2014) e europeia (Stromback, 2008; Hjarvard, 2014; Krotz, 2014; Hepp, 2013; Bolin, 2016), seus possíveis diálogos, aproximações e interlocuções.

A discussão se faz mais relevante quando compreendemos as migrações internacionais enquanto uma das “principais forças de transformação social em todo o mundo” (Góis e Marques, 2018, p. 126). A perspectiva das migrações em rede com os discursos e sentidos que circulam na construção de imaginários e representações tanto dos imigrantes pelos nacionais quando dos países de destino pelos imigrantes (Cogo, 2018) revelam a fertilidade e pertinência da compreensão dos fenômenos dos fluxos migratórios a partir da perspectiva das interações sociais características de uma esfera pública midiatizada. Este processo pode ser observado em uma série de situações empíricas que possuem as tecnologias de informação e comunicação e as redes sociais como elementos reconfiguradores e enquanto arena de ativistas transnacionais (Cogo, 2019) e, mais recentemente, o fortalecimento dos grupos anti-imigração em todo o mundo.

É certo que há pluralidade de conceitos e metodologias possíveis para o estudo de mídia e migrações, justificando a necessidade do esforço em situar tais contribuições e compreendê-lo a partir de qual linha respondem. Evidentemente não se pretende findar a discussão ou propor um esquema fechado e que rotule as pesquisas do campo. No entanto, pensamos que este trabalho pode fornecer contribuições ao trazer um mapeamento útil sobre caminhos e articulações possíveis para pesquisadores e estudantes. Portanto, o objetivo deste artigo é a investigação bibliográfica e a revisão das publicações sobre mídia e migrações de forma situada à discussão epistemológica sobre a midiatização enquanto conceito no campo da Comunicação. A partir do debate das problemáticas próprias da Comunicação enquanto ciência, pretendemos levantar insumos para um desenho sobre o estado da arte neste campo e propor um olhar próprio da midiatização para os fenômenos dos fluxos migratórios.

Midiatização das migrações ou mídia e migrações? Questões comunicacionais

É comum no campo da Comunicação o entendimento da mídia enquanto “ferramenta”, “instrumento” ou “espaço” para uma ação, onde os veículos teriam um “papel” frente ao objeto analisado. A perspectiva midiacêntrica, que considera a mídia com centro e protagonista de todas as demais esferas do mundo, é um legado da corrente funcionalista, em que a comunicação é vista como “um organismo cujas diferentes partes desempenham funções de integração e de manutenção do sistema” (Araújo, 2003, p. 123). Nesta perspectiva, que bebe da psicologia das massas, a mensagem possui efeitos diretos sobre o indivíduo que responderia apenas aos estímulos externos das mensagens midiáticas. Aqui, nota-se a exclusão das interações, organizações sociais, processos coletivos sócio-históricos com privilégio do indivíduo isolado e uma grande ênfase na mídia enquanto instrumento ou ferramenta de difusão de uma cultura hegemônica e das mensagens orquestradas pelos financiadores dos meios de comunicação, pelas empresas de mídia e pelo Estado.

Apesar do desuso no Brasil do funcionalismo enquanto modelo teórico nos estudos de mídia, o midiacentrismo e as análises de causa-efeito ainda se fazem presentes nas escolhas metodológicas dos trabalhos e pesquisas, como se o estudo da mensagem fosse suficiente para compreender processos comunicativos e como se determinada cobertura midiática fosse capaz de, sozinha, definir ou direcionar desdobramentos sociais, políticos, econômicos e culturais relativos aos objetos sociais que se investiga. Metodologia aqui é entendida como todo o processo da pesquisa, decisões, abordagens e “ações concretas e refletidas durante todo o desenvolvimento da pesquisa desde as primeiras hipóteses até os resultados finais” (Braga, 2011a, p. 7). Uma metodologia midiacêntrica é entendida, portanto, como aquela que se concentra apenas na análise da mensagem midiática de um veículo ou meio, como se o discurso midiático tivesse efeitos diretos sobre fenômenos sociais, comportamentos humanos, opiniões políticas e modos de vida, à exemplo do que defende as correntes funcionalistas.

Os objetos de pesquisa, por sua vez, constituem uma outra discussão constante e que permeia a Comunicação enquanto construção científica, dada a “extensão e diversidade da dimensão empírica que a comunicação recobre” (França, 2003, p. 47) e a dificuldade de manter um campo consolidado a partir de tecnologias comunicativas que se transformam, técnicas e linguagem que surgem e morrem a todo momento e a rapidez intransigente que recai a mudança de paradigma sobre os objetos comunicativos quando observados apenas como “ferramentas”, “instrumentos” e “meios de influência”. França (2003) observa que essa transformação faz com que a área seja dominada por modismos: seja por temáticas do momento, quadros conceituais simplificados ou vertentes explicativas que se substituem com impressionante velocidade. Estes fragmentos impedem a construção de um saber comunicativo consolidado que observe os fenômenos especificamente comunicacionais (Signates, 2019) em relação ao mundo moderno e seus desafios.

Frente a dificuldade do campo da Comunicação em se resolver com com ele próprio, seus objetos e metodologias, a noção de midiatização desenvolvida por pesquisadores brasileiros com base nas teorias e estudos latinos parece ter a força teórica necessária para explicar uma série de fenômenos contemporâneos que possuem profunda relação com os processos midiáticos. Assim, “midiatização” pode ser entendido como “um termo que nomeia o fenômeno, mas também é um conceito” (França, 2020). Os esforços científicos dos pesquisadores que hoje desaguaram em um conceito mais ou menos denso sobre a midiatização tem, segundo França (2020), sua gênese com a distinção que Sodré (2006) faz de mediação, enquanto “fazer ponte ou comunicarem-se duas partes” e midiatização enquanto “uma ordem de mediações socialmente realizadas – um tipo particular de interação, portanto, a que poderíamos chamar tecnomediações – caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium” (Sodré, 2006). Ou seja, a partir desta diferenciação de um canal ou meio técnico, Sodré abre portas para a compreensão de um processo (e um conceito) de transformação das esferas do mundo da vida.

Para Sodré (2006), a midiatização é um processo que qualifica a própria vida humana e sua relação com a realidade, propondo a existência de um novo bios, como uma outra esfera existencial, assumindo caráter profundo que corresponde a virtualização dos objetos do mundo, que implica a sua redefinição ontológica. Em uma outra abordagem de midiatização, Braga (2006) traz a perspectiva da midiatização da sociedade com a premissa fundamental da interação dos indivíduos e da sociedade com ela mesma a partir de lógicas midiatizadas que se misturam em processos diferidos e difusos de circulação de sentidos. Em conjunto com outros autores da Unisinos (Fausto Neto, 2010; Gomes 2016) deslocam o objeto dos meios à e poéticas para a circulação dos sentidos e fluxos comunicativos à exemplo de Martín-Barbero (1997) quando desloca o objeto dos meios às mediações culturais.

Evidentemente a abrangência do conceito de midiatização, considerado um marco epistemológico na comunicação (Gomes, 2020) extrapola as reflexões propostas neste artigo. No entanto, o que cabe reflexão neste espaço é a articulação das pesquisas que se propõem a investigar fenômenos migratórios e suas interlocuções com processos comunicativos e os conceitos que se utilizam. “Mídia e migrações” e suas derivações possuem sentido de proximidade e ao nos referirmos a “midiatização das migrações” estamos tratando do processo de articulação e entrelaçamento (Martino, 2020), abordado a partir de uma perspectiva específica referida acima.

Conforme aponta Martino (2019), entre as pesquisas na área, a utilização dos termos “midiatizado” ou “midiatização” não correspondem, necessariamente, a construções conceituais entre os diversos sentidos e correntes que possuem o termo no Brasil, América Latina e nos países Anglo-Saxões. O autor identifica que há um problema em parte dos trabalhos empíricos que se utilizam deste conceito: “A leitura dessas pesquisas indica que a disseminação do conceito e, mais ainda, da expressão, parece acontecer sem igual preocupação em definir do que se está, de fato, falando”.

É preciso fazer a distinção do uso do termo “midiatização” enquanto conceito e enquanto presença, cobertura ou veiculação (fenômeno) de temas correlatos à migração na mídia. Seguindo as indicações de Martino (2019) para delimitação do conceito, de forma a caracterizá-lo, mas sem pretensão de fechamento da discussão, tomamos a noção de articulação entre os sentidos midiáticos e o ambiente social como referência para análise das pesquisas que de fato utilizam a midiatização enquanto conceito para reflexão sobre as migrações contemporâneas.

França (2020) propõe uma sistematização ao conceito de midiatização e realiza a classificação dos autores e conceitos brasileiros e europeus com base em suas aproximações conceituais. Em comum, as teorias possuem a observação de um fenômeno inegável que se acentuou e se tornou evidente a partir do meio digital, que “revolucionou completamente a vida social, as formas de sociabilidade, o protagonismo individual, as práticas políticas, as intervenções corporativas” (França, 2020, p. 24) e a busca da reflexão deste fenômeno, compreendê-lo em sua totalidade e do esforço epistêmico de compreensão do mundo. Nesse sentido, esta reflexão se dá de formas variadas, já que a própria diferença das realidades, culturas, economias e histórias sociais dos países levam a construção de saberes particulares, com pontos de vista diversos sobre fenômenos distintos. Utilizamos, portanto, a sistematização de França para nossa análise bibliográfica, tendo em vista o alcance dos objetivos deste artigo. A autora assume o risco da “simplificação” da tentativa de agrupamento dos conceitos, no entanto, a proposta de França nos parece bastante adequada para compreensão do cenário atual das pesquisas em midiatização. Dessa forma, França (2020, p. 31-33) divide os autores entre as seguintes correntes:

Europeias:

  1. Corrente institucionalista: estudo da lógica das mídias, sua institucionalização e sua influência em outras lógicas do mundo e suas instituições. As análises privilegiam a forma sobre o conteúdo.
  2. Corrente socioconstrutivista: voltadas às práticas de interação cotidianas, enraizada no interacionismo simbólico e entende a midiatização como um metaprocesso de mudança cultural e da sociedade.
  3. Corrente tecnológica: enraizada na semiótica e antropologia estrutural, trata do domínio da cultura pelas tecnologias comunicativas e seus códigos.

Brasileiras:

  1. Macroconceito descritivo: midiatização enquanto descrição do fenômeno para identificar caraterísticas do mundo contemporâneo e com os fenômenos atuais.
  2. Crítico-determinista: macrococnceito com implicações bem delimitadas, mídia enquanto formatadora de pensamentos, sensibilidades e configuradora de um novo modo de vida.
  3. Abordagem analítica-processual: afirma mudanças intensas na vida social em decorrência de alterações nos processos interacionais e incorporação das tecnologias comunicacionais.

Metodologia, materiais e métodos

A metodologia utilizada é a de revisão bibliográfica (Stumpf, 2010, p.51), que se trata do “conjunto de procedimentos que visa identificar informações bibliográficas, selecionar os documentos pertinentes ao tema estudado e proceder à respectiva anotação dos documentos” com o objetivo de situar a pesquisa sobre os fenômenos comunicativos e midiáticos em relação com os fluxos migratórios. Dessa forma, a base de dados escolhida para a pesquisa foi a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), vinculada ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). A opção se baseou pela abrangência da biblioteca, que possui alcance nacional, e pelos recursos sofisticados de buscas e ferramentas de pesquisa. Ao todo, a BDTD concentra 489.130 mil dissertações e 175.881 teses de 127 instituições de pesquisa brasileiras.

O primeiro procedimento adotado foi a busca por termos e palavras-chave. Em um primeiro momento, houve a busca apenas por títulos (fonte primária) com tais termos e em seguida a busca foi feita por assunto (fonte secundária), ou seja, presente em resumos e por correlação terminológica, de acordo com orientação de Macedo (1994). Só foram selecionadas teses e dissertações defendidas em programas de pós-graduação em Comunicação, considerando suas variações de nomenclaturas, brasileiras e defendidas de 2001 a 2021. Ao todo, foram encontradas 7 teses de doutorado e 19 dissertações de mestrado, pesquisadas a partir dos seguintes termos: “Comunicação e migrações”; “Comunicação e migração”; “Comunicação e imigração”; “Comunicação e imigrações”; “Comunicação e imigrante”; “Mídia e migrações”; “Mídia e migração”; “Mídia e imigração”; “Mídia e imigrações”; “Mídia e imigrante”; “Midiatização das migrações”; “Midiatização da migração”; “Midiatização das imigrações” “Midiatização da imigração”; “Midiatização do imigrante”. Os termos que não tiveram resultado por título ou por assunto foram desconsiderados e excluídos das tabelas. A palavra “refúgio” e seus sinônimos que indicam “deslocamentos forçados” por motivos de guerras e demais conflitos não foram consideradas, uma vez que se trata de fenômeno específico que foge dos objetivos deste artigo. Em seguida, foi feita a tabulação de todas as teses e dissertações, com a obtenção de dados por ano, região geográfica e programa de pós-graduação da defesa do trabalho. Estes dados quantitativos foram importantes para o mapeamento das investigações no Brasil e situar a pesquisa brasileira no espaço e no tempo.

A quantidade de teses e dissertações encontradas permitiu análise qualitativa do material. Essa análise foi feita a partir dos resumos, capítulos teóricos e referências bibliográficas das pesquisas, tendo em vista encontrar diálogos, menções, interlocuções e aproximações teóricas ou metodológicas com as noções de midiatização apresentadas em suas diferentes correntes (Martino, 2021, p. 246). Além disso, buscamos classificar a corrente teórica predominante e abordagem sobre a mídia presente nos trabalhos, levando em conta a definição dos próprios autores nos resumos e nos capítulos teóricos. Aos artigos que utilizaram o termo “midiatização” e suas variantes, buscamos identificar a noção apresentada de acordo com o autor citado e relações criadas nas pesquisas a partir do esquema abaixo:

Quadro 1. Elementos possíveis de um processo de midiatização segundo Martino

Fonte: Martino (2021)

Um outro procedimento metodológico adotado, a exemplo de Simões et. al. (2020) foi a busca, nas referências bibliográficas dos artigos citados, de autores brasileiros e europeus relacionados ao conceito de midiatização e suas distintas correntes teóricas. Para esta sistematização e classificação dos autores, optamos por utilizar como base o artigo de Vera França (2020), intitulado “Alcance e variações do conceito de midiatização”, com o objetivo de aferir se as teses e dissertações levantadas se aproximam de alguma forma com a chave hermenêutica dos autores fundadores e precursores das correntes existentes na atualidade. O quadro abaixo ilustra como a sistematização foi realizada.

Quadro 2. Autores das teorias da midiatização e suas correntes

Correntes teóricas

Autores representantes

Europa do Norte:

1) corrente institucionalistas (lógica das mídias e interações com outras esferas);

2) corrente socioconstrutivista (práticas de interações cotidianas);

3) Tradição tecnológica (afetações da cultura e sociedade pelas tecnologias e códigos comunicativos).

Andreas Hepp, Stig Hjarvard, Friedrich Krotz, Winfried Schulz, Jesper Stromback

Brasil/latinos:
1) corrente macroconceito descritivo (nomeação e descrição do fenômeno; premissa);

2) corrente crítico-determinista (estruturante de um novo modo de vida);

3) corrente analítica-processual (mudanças intensas na vida social)

Muniz Sodré; José Luiz Braga; Pedro Gomes; Fausto Neto; Eliseo Verón

Fonte: Elaboração própria a partir de França (2020)

Compreendemos que as etapas quantitativa e qualitativa se complementam no esforço de mapear o estado da arte de forma aprofundada. No entanto, reconhecemos que para um mapeamento mais completo, é necessário explorar outras fontes de dados, como anais de congressos, artigos científicos indexados em periódicos e demais produções bibliográficas. Não temos a pretensão de esgotar o tema, o que seria impossível em um artigo, mas esperamos apontar caminhos, articulações e indicar novas produções que enriquecerão um campo ainda pouco explorado nas pesquisas da área.

Resultados e discussão

A primeira etapa desta investigação consistiu no levantamento de teses e dissertações na plataforma da BDTD, com a busca dos termos apontados na metodologia entre os anos de 2001 e 2021. Em levantamento quantitativo, obtivemos 26 trabalhos, sendo que 8 possuíam as palavras-chave nos títulos e 18 apareciam apenas quando pesquisados por assunto. Os termos que mais renderam resultados de busca foram “Comunicação e migrações” e “Mídia e migração”. A combinação entre “midiatização das migrações” rendeu apenas um resultado, ainda que articulação com esta teoria seja visível em mais trabalhos analisados. Curiosamente, o trabalho que possui “midiatização” no título é um dos mais antigos e data o ano de 2006. Inicialmente, pensamos que a utilização do termo na dissertação seria de forma externa à teoria, utilizando o termo com outros sentidos, como a “cobertura midiática” ou a presença de alguma mensagem na mídia (uso comum do termo em outros trabalhos). No entanto, o trabalho efetivamente articula conceitos de midiatização, que à época ainda eram incipientes, citando autores e buscando descrever a midiatização enquanto fenômeno e enquanto conceito.

Tabela 1. Levantamento de teses e dissertações por termo de busca

Termos de busca

Quantidade (busca por título)

Quantidade (busca por assunto)

Total

Comunicação e migrações

1

6

7

Comunicação e imigração

0

2

2

Comunicação e imigrantes

1

2

3

Mídia e migrações

2

0

2

Mídia e migração

2

3

5

Mídia e imigração

0

2

2

Mídia e imigrações

0

1

1

Mídia e imigrante

1

1

2

Midiatização das migrações

1

0

1

Midiatização da imigração

0

1

1

Total

26

Fonte: elaboração própria

Com relação ao ano de publicação, notamos certa distribuição, sem grandes concentrações em determinadas épocas ou períodos específicos. Não há um crescimento de interesse na temática nos últimos anos, mantendo-se as pesquisas estáveis. Também notamos que, exceto por exceções pontuais, os trabalhos são ligados a linhas de pesquisa específicas, com destaque a Prof. Dra. Denise Cogo, que aparece frequentemente como orientadora ou banca avaliadora nas pesquisas da área, sendo a principal referência brasileira nas pesquisas entre mídia e migrações. Mesmo nos casos em que não aparece como orientadora, é utilizada frequentemente como referencial teórico. O estudo também mostra a sólida trajetória da professora, que marca presença em três universidades distintas e com importantes trabalhos para o campo em diferentes épocas e com variados objetos de pesquisa.

Tabela 2. Levantamento de teses e dissertações por ano de publicação

Ano de publicação

Quantidade

2021

1

2020

3

2019

1

2018

2

2017

3

2016

3

2014

1

2012

3

2010

3

2009

1

2007

2

2006

1

2005

1

Fonte: elaboração própria

A concentração das pesquisas no eixo centro-sul do Brasil, notadamente nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul revela que há um campo fértil e pouco explorado no país. As recentes questões migratórias enfrentadas pelo Brasil que viu seus fluxos migratórios se intensificaram nos últimos anos, especialmente de imigrantes haitianos (Cogo, 2018) e venezuelanos (Cogo et. al., 2021), mostram que o tema está longe de ser esgotado. Especialmente na região norte, porta de entrada de parte dos imigrantes na fronteira com a Venezuela, é importante que as questões especificamente comunicacionais (Signates, 2019) desses processos sejam investigadas a partir de perspectivas regionais.

Apesar de revelar dois grandes pólos de investigação, os dados mostram uma concentração de produções científicas que vai de encontro com a necessidade de diversidade de abordagens, perspectivas, recortes e intersecções necessárias à análise dos objetos em Ciências Humanas e Sociais. Neste sentido, apontamos para a necessidade de descentralização dos estudos em mídia e migração, de forma a enriquecer este campo, cada vez mais imprescindível para a compreensão do mundo contemporâneo.

Tabela 3. Levantamento das teses e dissertações por Região e UF

Região

UF

Quantidade

Norte

PA

1

Sudeste

MG

1

Sudeste

RJ

1

Sudeste

SP

11

Sul

PR

3

Sul

RS

9

A questão também se mostra ao observarmos a concentração de trabalhos por Instituição de Ensino Superior (IES). Aqui observa-se uma predominância das instituições privadas nestes estudos, responsáveis por mais da metade das produções. A instituição com maior número de trabalhos, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), é também a instituição de uma forte linha de pesquisa em midiatização, liderada pelos professores José Luiz Braga, Pedro Gomes e Fausto Neto. É desta instituição que as principais articulações, ainda que tímidas, entre os conceitos da midiatização são feitas com os fenômenos migratórios.

Tabela 4. Levantamento das teses e dissertações por IES

IES

Quantidade

Unisinos

6

ESPM

4

PUC/RS

1

UFPR

2

UEPG

1

USP

1

Universidade Metodista de São Paulo

2

UFABC

1

PUC/SP

3

UERJ

1

UFJF

1

UFSM

2

UFPA

1

Fonte: elaboração própria

A análise dos resultados referentes a presença dos conceitos e autores da midiatização nas teses e dissertações, mostram que em quase nenhum caso estas teorias são usadas como chave conceitual e epistemológica de interpretação dos fenômenos migratórios. Nossa pesquisa aponta para o uso da midiatização muito mais como fenômeno contemporâneo do que como chave conceitual ou epistemológica das teorias da comunicação. Mesmo enquanto fenômeno, há pouca articulação entre os autores em busca de densidade conceitual, já que a midiatização fica ofuscada por outras teorias e epistemologias. Com exceção de poucos trabalhos, há uma predominância dos estudos culturais e dos estudos de representação midiática nos trabalhos e, quando observados pela ótica latina, as mediações culturais de Martin-Barbero possuem a preferência. Os estudos de recepção e dos usos das redes sociais por grupos imigrantes também apareceram, ainda que com frequência menor.

Ainda assim, os autores relacionados à teoria da midiatização por França (2020), aparecem frequentemente nos trabalhos, já que são referências brasileiras no campo da Comunicação, com destaque a obra “Antropológica do Espelho”, de Muniz Sodré (2002). No entanto, não há a articulação desses autores e há pouca ou nenhuma articulação epistemológica nos trabalhos, relacionando teorias, escolas e correntes das Teorias da Comunicação. Em todos os trabalhos, apenas um autor europeu, Stig Hjarvard, foi citado em um trabalho que se preocupou com a articulação dos conceitos de midiatização em perspectiva europeia e latina. Nos demais, há a completa ausência desses autores europeus na explicação dos fenômenos midiáticos. Nesse sentido, consideramos tímida a articulação entre a midiatização e as migrações nos trabalhos analisados.

Portanto, como resultado desta investigação, nota-se a carência das articulações conceituais das Teorias da Midiatização nos estudos sobre a migração. Essa carência não implica, no entanto, a ausência total desse conceito nas pesquisas, mas sim um debate ainda muito incipiente e com terreno féritl para seu desenvolvimento. À exemplo de Martino (2019), os resultados obtidos apontam pelo uso do termo “midiatização” e suas variantes sem a preocupação de conceituar ou discutir sobre aquilo que se está falando.

Quadro 3. A presença dos conceitos e autores de midiatização nas teses e dissertações

Título

Visão de mídia utilizada na pesquisa

Referências Bibliográficas (Dos autores relacionados às Teorias da Midiatização)

Uso do termo midiatização no trabalho

Mídia e diáspora venezuelana: recepção dos leitores sobre a migração no G1 Roraima

Estudo de recepção/mediações culturais/estudos culturais

Muniz Sodré (2002) - Antropológica do Espelho; José Luiz Braga (2015) - O grau Zero da comunicação; Fausto Neto (2002) - Sujeito, o lado oculto do receptor; Eliseo Verón (1997) Esquema para el análisis de la mediatización

Ligado à tecnologia, conectividade, as práticas sociais e culturais cotidianas. 1 aparição.

Representações sociais, mídia e violência: a “construção” do migrante e da migração venezuelana em Roraima por meio dos websites da Folha de Boa Vista e Folha de S. Paulo

Representações sociais

Eliseo Verón (2004) - Fragmentos de um tecido

Articula timidamente o conceito de midiatização, mas sem recorrer aos autores formuladores do conceito. O termo “midiatização” aparece uma vez, ligada a reformulação das vivências e da experiência. “Midiatizada” aparece quatro vezes, articulando sobre a “cultura midiatizada”.

Identidades em trânsito na narrativa jornalística: percepções dos deslocamentos contemporâneos de turistas e migrantes

Representação midiática/ estudos culturais

Muniz Sodré (2002) - Antropológica do Espelho

Contextualiza o termo “midiatização” por Muniz Sodré enquanto “virtualização das realidades humanas”. Quatro aparições.

Comunicação e cidade: migrações cearenses no Rio de Janeiro

Representação midiática/ estudos culturais/processo cultural

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

Retratos da migração transnacional na cidade de São Paulo : um estudo sobre o consumo imagético da exposição fotográfica “Somos Todos Imigrantes”

Produção e recepção midiática/ visibilidade

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

Comunicação, representações e migração feminina : um estudo de caso do grupo de rappers bolivianas Santa Mala

Representações sociais/ estudos culturais

Nenhuma referência

Menciona o termo “sociedade midiatizada” para se referir ao indivíduo que é “interpelado pelo mundo mediado” e “produtor de informação” e também afirma que “somos constituídos pelo consumo da mídia”. Não há menção ao termo midiatização.

Comunicação e narrativas de uma imigrante nordestina em São Paulo no contexto do coletivo teatral Estopô Balaio

Estudos culturais/recepção

Nenhuma referência

Usa o termo circulação “midiatizada” em referência a cobertura midiática de uma mensagem. Não há menção ao termo midiatização.

Dinâmicas comunicacionais de (in) visibilidade na experiência de refugiadas/os e imigrantes LGBTIQ+ nas cidades de São Paulo e Barcelona

Visibilidade midiática/ estudos culturais

Braga (2011b) - Constituição do Campo da Comunicação

Utiliza o termo “conjuntura midiatizada” em associação a presença das tecnologias de informação e comunicação. Utiliza o termo “midiatização” para se referir a presença da televisão na história brasileira. Há uma menção ao termo midiatização.

Babel nas terras alagadiças: revista Raízes, migrações e memórias em São Caetano do Sul

Estudos culturais/semiótica

Sodré (1986) - Técnicas de reportagem

Não há menção ao termo

Em casa fora de casa: estratégias comunicacionais na construção do sentido de pertença

Estudos culturais/convergência

Nenhuma referência

Usa o termo “signos midiatizados” para se referir aos processos de significação que constrói identidades.

Paisagens e imagens em trânsito: os bolivianos no Exílio paulistano

Estudos culturais/antropologia da imagem

Muniz Sodré (2018) - A sabedoria frente a economia; Muniz Sodré (2003) O globalismo como Barbárie;

Não há menção ao termo

Imigrantes no discurso jornalístico: quem são eles?

Representações sociais/ linguistica

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

Imprensa de comunidades imigrantes de São Paulo e identidade: estudo dos jornais ibéricos Mundo Lusíada e Alborada

Representações/estudos culturais

Eliseo Verón (2004) - Fragmentos de um tecido

Não há menção ao termo

MÍDIA ÉTNICA: UMA ANÁLISE DOS JORNAIS PARA MIGRANTES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS

Representações/informação/estudos do jornalismo

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

A identidade cultural como fator de integração. Comunicação, história, cultura e memória na hibridação dos itálicos no Brasil

Estudos culturais

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

Mídia imigrante e memória: estudo das representações sobre a morte a partir dos obituários do jornal ucraniano Prácia

Representações sociais

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

O Haiti em Curitiba : um olhar interpretativo das práticas comunicativas dos haitianos no novo território

Estudos culturais/midiatização

Stig Hjarvard (2015) - Da mediação à midiatização: a institucionalização das novas mídias; Muniz Sodré (2005) - Por um conceito de minorias; Braga (2006) - A sociedade enfrenta sua mídia; (2009) Midiatização: a complexidade de um novo processo social; (2011a) - A prática da pesquisa em Comunicação: abordagem metodológica como tomada de decisões; (2011b) Constituição do campo da Comu

nicação (2012) - Circuitos versus campos sociais;

O termo “midiatização” é mencionado 86 vezes, “midiatizada” 32 vezes e “midiatizado” 16 vezes. Faz uma longa discussão acerca do conceito, especialmente sobre a obra de José Luiz Braga. A articulação com os europeus existe, mas é tímida.

Identidade polono-brasileira em São Mateus do Sul - PR: processos comunicativos de expressão étnica tecidos em família

Mediações culturais/identidades

Nenhuma referência

Termo “sociedade midiatizada” é mencionado uma vez, com relação a memória coletiva na construção da identidade, destacando o papel da mídia na formação da identidade étnica.

Mídia virtual e a diáspora brasileira : a identidade nacional retratada em sites para expatriados

Identidades culturais

Sodré (2010) - Sobre a identidade brasileira

Não há menção ao termo

Usos sociais do Facebook por migrantes brasileiros na Suécia: identidades, diferenças e dinâmicas interculturais nas redes sociais online.

Estudos culturais

Sodré (1999) - Claros e escuros;

Termo “midiatizadas” aparece uma vez como sinônimo de “questões midiáticas”.

Mídias e migrações: a representação de si e a representação midiática da identidade senegalesa em diáspora

Mídia enquanto “espaço”/ representação midiática

Muniz Sodré (1999) - Claros e Escuros; Muniz Sodré (1992) O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia; Muniz Sodré (2003) - Globalismo como neobarbárie;

Não há menção ao termo

Midiatização das migrações contemporâneas: a cobertura noticiosa do jornal nacional e sua recepção por imigrantes residentes em Porto Alegre

Estudos culturais/mediações

Muniz Sodré (2002) - Antropológica do Espelho; Sodré (2001) Bios midiático: um novo sistema conceitual no campo da comunicação; Pedro Gomes (2001) - Televisão, escola e juventude; Fausto Neto (1999) - Cartografia dos estudos culturais; Fausto Neto (1995) - A deflagração do sentido: estratégia de produção e da captura da recepção; Eliseo Verón (1997) = Esquema para el análisis de lá mediatización

O termo “midiatização” é mencionado 88 vezes. O termo midiatizada é encontrado 11 vezes. Apesar da defesa da dissertação em 2006, há intensa articulação com o conceito de midiatização, que à época ainda estava incipiente. O autor de fato busca compreender o fenômeno das migrações à luz dos processos de midiatização sob ótica latina.

Fotografias que revelam imagem da imigração: pertencimento e gênero como faces identitárias

Representações sociais/Semiótica

Muniz Sodré (2002) - Antropológica do Espelho; Braga (2000) - Interatividade e recepção; Braga (2004) - Os estudos de interface como construção do campo da comunicação; Pedro Gomes (2004) - Tópicos de teoria da comunicação

Utiliza o termo “midiatização” uma vez para se defender que o processo comunicativo não se resume a relação entre emissor e receptor. Usa o termo “midiatizada” para se referir a presença de representações na mídia.

Brasileiros na Espanha: internet, migrações transnacionais e redes sociais

Redes sociais/uso das redes

Pedro Gomes (2004) - Tópicos de teoria da comunicação

Cita o termo “midiatização” uma vez para se referir a uma nova estruturação das práticas sociais a partir da mídia.

Migrações transnacionais e usos sociais da internet: identidades e cidadania na diáspora latino-americana

Redes sociais/uso das redes

Muniz Sodré (2002) - A antropológica do espelho; Pedro Gomes (1998) - O adolescente e a televisão; Braga (2000) - Interação e recepção; Eliseo Verón (1997) - Esquema para el análisis de la mediatización

Termo midiatização aparece duas vezes para se referir à centralidade da mídia nos processos sociais contemporâneos. Dialoga com o conceito e articula autores da midiatização.

Recepção midiática e migrações contemporâneas: usos de mídias e sentidos sobre o trabalho entre migrantes na região sul do Brasil

Estudos de recepção/uso da mídia

Eliseo Verón (1992) - Interfaces sobre la democracia audiovisual evolucionada

Utiliza o termo uma vez como citação de outro autor, sem conceituar ou desenvolver.

Usos da internet na atuação de movimentos sociais em rede: um estudo sobre o fórum social mundial das migrações

Estudos de recepção/uso da mídia

Nenhuma referência

Não há menção ao termo

Fonte: elaboração própria

Considerações finais

No que diz respeito às articulações entre midiatização e migrações, sabe-se que as “estratégias de midiatização dos processos migratórios contemporâneos e das falas imigrantes no contexto brasileiro” foi objeto de linha de pesquisa liderada pela Prof. Dra. Denise Cogo em 2004. Ou seja, apesar das poucas articulações observadas entre estes conceitos nos levantamentos propostos por estas pesquisas, elas não são inexistentes. No entanto, a temática da midiatização viu, nos últimos anos, a consolidação inegável enquanto conceito integrante das Teorias da Comunicação, possuindo escolas e correntes distintas no Brasil, América Latina e Europa, sendo uma importante chave de compreensão dos fenômenos migratórios contemporâneos, que também se intensificam no Brasil e no mundo.

Nesse sentido, a compreensão dos componentes especificamente comunicacionais (Signates, 2019) nos processos contemporâneos da atualidade, sob as diversas correntes das teorias da midiatização, nos diversos estados federativos brasileiros, contextos e realidades migratórias, se mostram terrenos férteis para a pesquisa científica tanto para a compreensão do fenômeno da midiatização em si quanto para a compreensão dos fenômenos migratórios frente a uma realidade complexa em que os processos sociais se configuram a partir de lógicas midiáticas de interação em uma esfera pública midiatizada.

Há uma profunda (e pouco explorada) diferença em compreender o especificamente midiático no fenômeno dos fluxos migratórios enquanto “ferramenta” ou designando à mídia um “papel” de “representação” dos migrantes e processos migratórios ou enquanto inseridos na lógica das sociedades midiatizadas e suas diversas chaves de leitura da realidade. Não raro, a primeira leva a uma perspectiva midiacêntrica (Martino, 2021), conferindo à mídia relações de causa e efeito em acontecimentos da realidade. Não advogamos, com isso, contra a importância da variedade teórica, conceitual e metodológica necessária aos estudos da Comunicação e análise dos fenômenos migratórios. As próprias Teorias da Midiatização são plurais, descentralizadas e com correntes distintas, preocupadas com elementos diversos.

Nossas considerações finais apontam, portanto, ao fortalecimento dos estudos em midiatização, a compreensão conceitual de suas correntes, articulações e distinções. Apontam também para uma perspectiva que se encontra fértil, mas com atenção aquém do necessário, no campo que trata da compreensão dos fenômenos migratórios, suas teorias, conceitos e correntes à luz das teorias da midiatização e sua complexidade conceitual. Longe de ser conclusivo, este estudo espera oferecer subsídio para novas práticas de pesquisa que articulem produzam conhecimento comunicacional sobre as questões migratórias.

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